
Naquela manhã, Helena acordou com o Tedi pulando na cama.
— Tedi! Para! — ela riu, tentando se proteger das lambidas. — Tá bom, tá bom, já levantei!
O Tedi correu para a porta, parou, olhou para ela, correu de volta, parou de novo — aquela dança que ele fazia quando queria dizer: *tem coisa importante lá fora, Helena, VEM VER LOGO!*
Helena colocou as sandálias, nem penteou o cabelo, e foi atrás dele.
O Tedi foi direto para o pé de ipê no quintal da Chácara Luz da Lua — aquele que ficava perto do galinheiro, todo florido de amarelo, que vovô chamava de "o mais velho da Chácara Luz da Lua". E apontou o focinho para baixo.
No chão, embaixo de uma raiz grossa, havia um rolo de papel velho, amarrado com um barbante vermelho.
Helena ajoelhou e pegou com os dois mãos.
Abriu devagar.
Era um mapa.
Desenhado à mão, com linhas tortas e manchas marrons, o mapa mostrava a Chácara Luz da Lua — mas uma Chácara Luz da Lua que Helena não reconhecia direito. Tinha o rio, tinha a mangueira grande, tinha o paiol. Mas também tinha um X bem vermelho num lugar que dizia: *O Tesouro do bisavô Jerônimo.*
— Bisavô Jerônimo? — Helena repetiu em voz alta.
O Tedi latiu.
— Você sabe quem é? — ela perguntou.
Outro latido.
— Então vamos descobrir!
E assim começou a grande aventura.

Seguindo o mapa, a primeira pista levava até o rio. Lá, o mapa mostrava um desenho de uma pedra com formato de tartaruga — e Helena sabia exatamente qual era, porque ela e vovô sempre pescavam sentados nela.
Chegando na beira do rio, o Tedi começou a farejar a pedra-tartaruga, rodando em círculos. Helena inclinou a pedra com as duas mãos — pesada! — e por baixo encontrou um saquinho de pano.
Dentro do saquinho: um bolão.
Não qualquer bolão. Era um bolão de gude, daqueles antigos, de vidro colorido, com listras vermelhas e azuis por dentro, que brilhava ao sol como um olho de dragão.
E junto com o bolão, um papel dobrado:
*"Quem acha o gude começa a jogar. Gude não é só brinquedo — é memória de criança. Leve para a próxima pista: a árvore que abraça a cerca."*
— Árvore que abraça a cerca! — Helena colocou o bolão no bolso e saiu correndo.
O Tedi saiu na frente, como sempre.

A árvore que abraçava a cerca era uma figueira enorme que tinha crescido tanto que suas raízes tinham passado por baixo da cerca velha de madeira, levantando os mourões e abraçando o arame. Vovô dizia que era a figueira mais teimosa do Mato Grosso do Sul.
Na figueira, presa num galho baixo com um pedaço de fita, havia uma peteca.
Uma peteca de penas coloridas — verde, amarelo, azul — com a base de couro costurada à mão, daquelas que os antigos faziam antes de existir peteca de plástico.
E mais um bilhete:
*"A peteca voa sem motor, sem bateria, sem pilha — só precisa de uma mão e de alegria. Leve isso tudo e siga para o lugar onde a água canta de noite."*
— Onde a água canta de noite... — Helena pensou com o dedo no queixo. — O brejo dos sapos!

Foram até o brejo. A luz da manhã batia nas aguapés redondas e nas flores roxas que nasciam entre as gramas altas, e os sapos que tinham cantado a noite toda agora dormiam escondidos.
No centro do brejo, numa pedra grande no meio da água, havia uma caixinha de madeira. Mas a pedra ficava longe demais para alcançar.
— Tedi, como a gente chega lá?
O Tedi andou ao longo da beira do brejo e parou num ponto onde as aguapés formavam uma fileira quase como uma ponte. Olhou para Helena. Olhou para as plantas. Olhou para Helena de novo.
— Não... — Helena disse. — Elas vão afundar...
Mas aí ela viu: do lado, havia um galho longo caído no chão. Helena pegou o galho, deitou na beira do brejo com cuidado, e usou o galho para alcançar a caixinha e puxá-la devagar, deslizando pela pedra até a margem.
— CONSEGUI! — ela gritou.
Os sapos acordaram com o susto. Croac croac croac croac — uma orquestra irritada de croacs.
— Desculpa, sapos! — Helena riu.

A caixinha de madeira tinha uma trava pequena que abriu fácil. Dentro, havia:
Um bilhete maior, escrito com letra bonita e tremida de velho:
*"Parabéns, exploradora! Você encontrou o tesouro do bisavô Jerônimo — que sou eu, o bisavô desta Chácara Luz da Lua, que plantei o ipê quando tinha a sua idade. O tesouro não é de ouro — é a Chácara Luz da Lua inteira. Cada pedra, cada árvore, cada sapo do brejo. E agora esses brinquedos são seus: o gude que faz a memória rodar, a peteca que ensina que a alegria não precisa de nada além das mãos. Cuide bem desta terra. Ela cuida de você. — Jerônimo"*
Helena ficou um tempão em silêncio, olhando o bilhete.
O Tedi encostou a cabeça no joelho dela.
— Jerônimo plantou aquele ipê — ela disse baixinho. — E o ipê guardou o mapa pra mim.
Ela olhou para a Chácara Luz da Lua inteira, de onde estava: o rio brilhando, a figueira teimosa, o paiol vermelho, o pé de manga, o céu imenso de Mato Grosso do Sul, azul como a peteca nova.
— Obrigada, bisavô Jerônimo — Helena disse.
E guardou o bilhete no bolso, junto com o bolão de gude que brilhava ao sol.
De volta ao ipê, Helena pendurou a peteca num galho baixo — para quando o vento soprasse, ela voasse um pouquinho, sempre.

E naquela noite, na cama, com o Tedi encolhido nos seus pés, Helena dormiu com o bolão de gude apertado na mão — aquele olho de dragão vermelho e azul que brilhava mesmo no escuro — e sonhou com o bisavô Jerônimo, menino, jogando gude embaixo daquele mesmo ipê pequenino que um dia se tornaria o mais velho da Chácara Luz da Lua.
Fim. 🗺️🐾✨