← Voltar aos 7 contos
🗺
Conto da Helena — Aventura

🗺️ Helena e o Mapa da Chácara Luz da Lua

Helena acorda com Tedi na cama
Helena acorda com uma surpresa do Tedi.

Naquela manhã, Helena acordou com o Tedi pulando na cama.

O Tedi correu para a porta, parou, olhou para ela, correu de volta, parou de novo — aquela dança que ele fazia quando queria dizer: *tem coisa importante lá fora, Helena, VEM VER LOGO!*

Helena colocou as sandálias, nem penteou o cabelo, e foi atrás dele.

Helena e Tedi encontram um mapa sob o Jacarandá
O mapa aparece sob a raiz do Jacarandá.

O Tedi foi direto para o pé do Jacarandá no quintal da chácara — aquele que ficava perto do galinheiro, todo florido de roxo, que o vovô chamava de “o mais velho da chácara”. E apontou o focinho para baixo.

No chão, embaixo de uma raiz grossa, havia um rolo de papel velho, amarrado com um barbante vermelho.

Helena ajoelhou e pegou com as duas mãos.

Abriu devagar.

Era um mapa.

Desenhado à mão, com linhas tortas e manchas marrons, o mapa mostrava a chácara — mas uma chácara que Helena não reconhecia direito. Tinha o rio, tinha a mangueira grande, tinha o paiol. Mas também tinha um X bem vermelho num lugar que dizia: *O Tesouro do Bisavô Jerônimo.*

O Tedi latiu.

Outro latido.

E assim começou a grande aventura.

Helena encontra o bolão de gude sob a pedra-tartaruga
A pedra-tartaruga e o bolão de gude no rio.

Seguindo o mapa, a primeira pista levava até o rio. Lá, o mapa mostrava um desenho de uma pedra com formato de tartaruga — Helena sabia exatamente qual era, porque ela e vovô sempre pescavam sentados nela.

Chegando à beira do rio, o Tedi começou a farejar a pedra-tartaruga, rodando em círculos. Helena inclinou a pedra com as duas mãos — pesada! — e por baixo encontrou um saquinho de pano.

Dentro do saquinho: um bolão.

Não qualquer bolão. Era um bolão de gude, daqueles antigos, de vidro colorido, com listras vermelhas e azuis por dentro, que brilhava ao sol como um olho de dragão.

E junto com o bolão, um papel dobrado:

*“Quem acha o gude começa a jogar. Gude não é só brinquedo — é memória de criança. Leve para a próxima pista: a árvore que abraça a cerca.”*

O Tedi saiu na frente, como sempre.

Helena encontra uma peteca na figueira junto à cerca
A peteca colorida na figueira que abraça a cerca.

A árvore que abraçava a cerca era uma figueira enorme que tinha crescido tanto que suas raízes tinham passado por baixo da cerca velha de madeira, levantando os mourões e abraçando o arame. Vovô dizia que era a figueira mais teimosa do Mato Grosso do Sul.

Na figueira, presa num galho baixo com um pedaço de fita, havia uma peteca.

Uma peteca de penas coloridas — verde, amarelo, azul — com a base de couro costurada à mão, daquelas que os antigos faziam antes de existir peteca de plástico.

E mais um bilhete:

*“A peteca voa sem motor, sem bateria, sem pilha — só precisa de uma mão e de alegria. Leve isso tudo e siga para o lugar onde a água canta de noite.”*

Helena puxa uma caixinha do brejo usando um galho
A caixinha de madeira no brejo dos sapos.

Foram até o brejo. A luz da manhã batia nos camalotes redondos e nas flores roxas que nasciam entre as folhas altas, e os sapos que tinham cantado a noite toda agora dormiam escondidos.

No centro do brejo, numa pedra grande no meio da água, havia uma caixinha de madeira. Mas a pedra ficava longe demais para alcançar.

O Tedi andou ao longo da beira do brejo e parou num ponto onde os camalotes formavam uma fileira quase como uma ponte. Olhou para Helena. Olhou para as plantas. Olhou para Helena de novo.

Mas aí ela viu: do lado, havia um galho longo caído no chão. Helena pegou o galho, deitou na beira do brejo com cuidado, e usou o galho para alcançar a caixinha e puxá-la devagar, deslizando pela pedra até a margem.

Os sapos acordaram com o susto. Croac croac croac — uma orquestra irritada de croacs.

Helena e Tedi encontram o tesouro do Bisa Jerônimo
O tesouro das brincadeiras e o bilhete do Bisa.

A caixinha de madeira tinha uma trava pequena que abriu fácil. Dentro, havia:

Um bilhete maior, escrito com letra bonita e tremida:

*“Parabéns, exploradora! Você encontrou o tesouro do Bisavô Jerônimo — que sou eu, o bisavô desta chácara, que plantei o Jacarandá quando tinha a sua idade. O tesouro não é de ouro — é a chácara inteira. Cada pedra, cada árvore, cada sapo do brejo. E agora esses brinquedos são seus: o gude que faz a memória rodar, a peteca que ensina que a alegria não precisa de nada além das mãos. Cuide bem desta terra. Ela cuida de você. — BISA”*

Helena ficou um tempão em silêncio, olhando o bilhete.

O Tedi encostou a cabeça no joelho dela.

Ela olhou para a chácara inteira, de onde estava: o rio brilhando, a figueira teimosa, o paiol vermelho, o pé de manga, o céu imenso de Mato Grosso do Sul, azul como a peteca nova.

E guardou o bilhete no bolso, junto com o bolão de gude que brilhava ao sol.

De volta ao Jacarandá, Helena pendurou a peteca num galho baixo — para quando o vento soprasse, ela voasse um pouquinho, sempre.

Helena dorme com Tedi e sonha com o Bisa Jerônimo
O sonho de Helena com o Bisa Jerônimo.

E naquela noite, na cama, com o Tedi encolhido nos seus pés, Helena dormiu com o bolão de gude apertado na mão — aquele olho de dragão vermelho e azul que brilhava mesmo no escuro — e sonhou com o Bisa, menino, jogando gude embaixo daquele mesmo Jacarandá pequenino que um dia se tornaria o mais velho da chácara.

Fim. 🗺️🐾✨

✨ Fim ✨