🎙️ Ouvir a narração do vovô Mau Mau
Uma narração calorosa, com a voz do vovô Mau Mau.

Na Chácara Luz da Lua, quando o sol se despede de laranja e o céu começa a encher de estrelas, diz a lenda que uma porta aparece no meio do cerrado — só quem tem coração curioso consegue vê-la.
Helena estava sentada na varanda, balançando os pés, quando o Tedi farejou o ar de um jeito diferente. Ele olhou para o mato, olhou para Helena, e saiu correndo.
— Tedi! Espera! — Helena correu atrás.
No meio das árvores retorcidas e das flores amarelas do ipê-do-cerrado, havia uma porta pequena, de madeira roxa, com um puxador de pedra. Pendurada nela, uma corda de sisal com um bilhete:
*"Quem bater três vezes e fizer um giro de pião, pode entrar."*
Helena não pensou duas vezes. Ela bateu: *toc, toc, toc.* E girou como um pião — igual ensinava a vovó quando brincavam no terreiro.
A porta se abriu com um suspiro de vento morno.

Do outro lado, havia um campo infinito iluminado por vagalumes que falavam. Um deles pousou no nariz do Tedi e disse com uma voz fina como agulha:
— Bem-vinda, Helena! Sou Pirilampo. Você chegou bem a tempo!
— Bem a tempo de quê? — ela perguntou.
— A Iara das Águas Claras está chorando — respondeu Pirilampo. — Ela perdeu sua pulseira de sementes do Pantanal, e sem ela, os peixes do Rio Paraguai não sabem mais para onde nadar. O rio está todo confuso!
Helena abriu os olhos. Conhecia a Iara das histórias do vovô — uma guardiã das águas, linda e gentil, que cuidava dos rios de Mato Grosso do Sul.
— Onde ela está?
— Na beira do rio encantado. Mas só chega lá quem completar três desafios dos Guardiões do Cerrado.
O Tedi latiu corajoso, e Helena segurou sua patinha.
— A gente consegue.

O primeiro Guardião era uma anta enorme com óculos de folha.
— Para passar — ela disse —, vocês precisam equilibrar esta bolinha de gude no dorso da minha orelha por dez segundos.
Helena sabia jogar gude! O vovô havia ensinado. Com cuidado, ela pegou a bolinha de vidro colorido e, delicadamente, equilibrou-a na orelha da anta.
*Um, dois, três... dez!*
— Passaram! — a anta riu, sacudindo a cabeça.

O segundo Guardião era um veado-campeiro que falava em rima.
— *Para cruzar meu campo florido,* *cantem uma canção de folclore querido!*
Helena pensou rápido. Ela começou a cantar:
— *"Boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta!"* — ela gritou, rindo.
O veado bateu os cascos no chão animado.
— *Muito bem! Cantaram com gosto,* *podem seguir o caminho mais certo!*

O terceiro Guardião era uma coruja velha, sentada num galho de aroeira.
— Meu desafio é simples — disse a coruja. — Me digam: qual é a maior riqueza de Mato Grosso do Sul?
Helena coçou a cabeça. Ouro? Diamante? Ela olhou para o Tedi, olhou para os vagalumes, olhou para o céu cheio de estrelas — e sorriu.
— A natureza. O Pantanal, o cerrado, os rios, os bichos. É tudo isso junto.
A coruja fechou os olhos com satisfação.
— Sábia pequena. Podem passar.

Finalmente, chegaram à beira do rio encantado. Sentada numa pedra, com os pés na água, estava a Iara — cabelos longos e negros, olhos verdes como folha molhada, e uma expressão triste.
— Iara! — Helena chamou.
A Iara olhou surpresa.
— Uma criança me encontrou?
— A gente veio devolver sua pulseira! — Helena disse. — Mas... a gente ainda não a achou.
Iara sorriu de lado.
— Ela não se perdeu no mato. Ela estava com quem pudesse encontrá-la.
E apontou para o pescoço do Tedi.
Lá estava: enrolada no pelo da garganta dele, uma pulseira fina de sementes coloridas — tucumã, buriti, e carandá — que o Tedi havia encontrado na Chácara Luz da Lua sem perceber.
Tedi abaixou a cabeça envergonhado. Helena tirou a pulseira com cuidado e entregou à Iara.
No mesmo instante, o rio brilhou. Os peixes saltaram. Os vagalumes dançaram em espiral.
— Obrigada, Helena — a Iara disse. — E obrigada a você também, Tedi. Sem você carregar a pulseira com carinho, ela poderia ter se perdido para sempre.
O Tedi abanou o rabo tão forte que quase caiu na água.
Pirilampo voltou a pousar no nariz de Helena.
— Hora de voltar. A porta só fica aberta até a primeira estrela cadente.
Helena acenou para a Iara, pegou o Tedi no colo, e correu de volta pela porta roxa.

Quando ela pisou de volta na Chácara Luz da Lua, a porta sumiu entre as folhas. Lá no céu, uma estrela riscou o escuro com uma cauda de luz.
Helena se deitou na grama, com o Tedi quentinho ao lado, e sussurrou:
— Boa noite, Iara. Cuida bem dos rios.
E lá de longe, do fundo das águas do Pantanal, veio um brilho suave, como resposta.
Fim. ✨🌙🐾